De onde vêm as boas ideias?

1 de maio de 2012 | ligiafascioni
Ilustração: Charis Tsevis

Ilustração: Charis Tsevis

Essa é daquelas perguntas que valem um milhão, e Steven Johnson resolveu ser atrevido o suficiente para tentar respondê-la em “Where good ideas come from: the seven patterns of innovation“. Olha, preciso dizer: se ele não acertou, chegou muito perto. O sujeito pesquisou bastante e descobriu coisas muito interessantes.

Ele começa incinerando o mito do gênio solitário. Steven faz uma analogia com a teoria da evolução darwiniana e explica que a vida, assim como as ideias, depende principalmente do ambiente favorável e das conexões para existir. As ideias nunca são isoladas; tanto na escala do nosso cérebro, onde zilhões de neurônios não servem para nada se não estiverem conectados (e quanto mais conexões e recombinações, melhor), como nas dimensões de uma organização, uma cidade ou um país.

Johnson estudou mais ainda e identificou 7 padrões ambientais/comportamentais para o desenvolvimento de novas e boas ideias. Veja se você tem aí tudo o que precisa.

1. Adjacente possível. As ideias vão evoluindo a partir de outras; o adjacente possível trata das combinações que você pode fazer em cada estágio. Usando a teoria darwiniana, Steven dá o exemplo do caldo primordial na formação do planeta: com aqueles elementos, era possível um determinado número de combinações. Cada combinação dá origem a outro tanto de variações, numa sequência que pode formar uma célula. Daí, mais combinações, variações e possíveis resultados. O que ele quer dizer é que é preciso explorar as possibilidades adjacentes (alcançáveis nesse estágio evolutivo) para seguir adiante; não dá para pular direto de uma célula para um hipopótamo. Johnson fala que o adjacente possível é como as portas de uma sala. Cada uma que você escolher abrir, vai dar em outra sala, com outras portas e o desdobramento é infinito. Mas não dá para pular salas inteiras, tem que percorrer todo o caminho. Ele dá exemplos de invenções que não deram certo porque foram desenvolvidas numa época em que os adjacentes possíveis, ou seja, as portas disponíveis para serem abertas, não eram suficientes ou adequadas (a porta necessária estava a duas ou 3 salas de distância). Um exemplo: o Youtube não seria o sucesso que é se tivesse sido criado nos anos 80, pois a web não comportava vídeos com as facilidades de hoje e ainda não tinha banda larga. Então, antes de desenvolver uma ideia, tem que dar uma olhada nas portas para ver o desdobramento imediato. Às vezes, é preciso esperar mais um pouco.

2. Redes líquidas. Agora uma notícia até que óbvia, mas que me deixou um pouco chocada: praticamente não dá para inovar em cidades pequenas. Na verdade, não é que não dê, mas em metrópoles, as possibilidades de conexões (e adjacentes possíveis) são muito maiores, o que torna o ambiente mais favorável. Cidades grandes são comprovadamente mais criativas do que vilarejos. Steven comenta que já se buscou muitas definições para a palavra ideia remetendo a raios, lâmpadas, flashs, epifânias e eurekas, mas passaram longe do que realmente as ideias são. Para Johnson, boas ideias são conexões. Em princípio, conexões neuronais na cabeça de alguém. Mas essas conexões são resultado de outras conexões externas (experiências, informações, etc). Para se ter boas ideias, são necessárias duas precondições: uma grande rede (não é possível ter ideias geniais com apenas 3 neurônios, por exemplo) e que essa rede tenha capacidade de adaptar e adotar novas configurações. Mas há que se prestar atenção: não é que as redes sejam inteligentes; os indivíduos é que se tornam mais inteligentes quando se conectam nela. Esse é o motivo pelo qual, cidades maiores conseguem ser mais propícias a boas ideias; elas reúnem mais pessoas diferentes, culturas, modos de organização. Enfim, o caldo é mais rico. Quando o indivíduo se conecta nessa rede, tem mais elementos para recombinar; seu adjacente possível aumenta com o tamanho da rede em que está inserido. A mesma coisa vale para empresas; se elas estão conectadas com outras, ou seus próprios funcionários estão ligados, a possibilidade de ter boas ideias aumenta.

3. A intuição lenta. Como Malcom Gladwell (Blink) já demonstrou com muita propriedade, a intuição é quando nosso cérebro trabalha em background com todas as conexões que conseguiu acumular sobre aquele assunto e outros, correlatos ou não, até a hora que a linha de raciocínio de completa. Aí, a pessoa fica achando que teve um palpite, uma epifânia, sai gritando eureka feito doida. Mas o trabalho é  bem mais lento do que se imagina. As conexões levam anos para encontrarem um caminho de se ligarem umas às outras e também dependem dos adjacentes possíveis. Por isso é que Steven critica os brainstormings da maneira como são feitos; a probabilidade das conexões entre os participantes encontrarem um caminho entre os adjacentes possíveis em tão pouco tempo é bastante improvável.  O autor recomenda que todas as ideias e informações sejam registradas e revistas frequentemente (hábito que Darwin tinha).

4. Serendipitia. Essa palavra tem origem em um conto persa, onde três reis foram visitar uma princesa e descobriram no caminho várias coisas que não estavam procurando. Serendipitia é encontrar soluções por acaso (exemplo clássico forno de microondas, que foi inventado depois que um pesquisador descobriu que ele derretia os chocolates em seu bolso). Para isso, é preciso provocar constantemente conexões inusitadas e pensar sobre como elas poderiam ser desdobradas; mas o histórico de conexões internas tem que estar preparado para a sintonia, senão nada acontece. A web pode ajudar bastante quando a gente surfa e encontra assuntos interessantes que não estava procurando, por exemplo, mas a mente tem que estar preparada, senão é só perda de tempo mesmo. Outra coisa curiosa (mas também óbvia) é que não se faz conexões inusitadas na ordem; isso funciona mais no caos.

5. Erros. As pessoas que têm mais boas ideias, também erram mais (é claro, elas fazem mais conexões). O engraçado é que às vezes a gente acha que existe um erro só porque não tem explicação para o fenômeno. Os cientistas que descobriram sinais do Big Bang levaram mais de um ano achando que as manchas que estavam enxergando eram problema do telescópio (e às vezes é mesmo, não há como saber).

6. Exaptação. Esse é um termo emprestado da biologia, que descreve organismos otimizados para funções específicas, mas que depois foram usadas para outros fins com sucesso. Na inovação, o exemplo clássico é a prensa de Gutenberg, que foi inspirada nas prensas de uva para fazer vinho. Ou a World Wide Web, que nasceu dentro de um laboratório para servir de plataforma de pesquisa para hipertextos e hoje serve para tanta coisa que ninguém tinha pensado antes. Ou ainda o GPS,  que foi concebido para fins militares e agora é onipresente nos táxis das cidades grandes.

7. Plataformas. Nenhuma boa ideia começa do zero; há que se apoiar sempre nos ombros de gigantes, como já dizia o grande Isaac Newton. Se você usou plataformas abertas (sejam tecnológicas, matemáticas, literárias, artísticas ou o que for) para desenvolver sua ideia, seja generoso e também deixe sua plataforma disponível para os que vêm a seguir. Todo mundo ganha assim.

Johnson ainda fala mais sobre a tendência crescente do desenvolvimento de ideias em rede. Vale a pena  saber mais.

Por último, ele consegue resumir o livro todo num parágrafo: “Saia para caminhar; cultive intuições; anote tudo, mas mantenha suas anotações um pouco bagunçadas; abrace a serendipitia; cometa erros criadores; tenha múltiplos hobbies; frequente cafeterias e outras redes líquidas; siga os desdobramentos; deixe os outros construírem sobre suas ideias; empreste, recicle, reinvente. Construa uma base de contatos emaranhados.

E você, já tem tudo o que precisa?

Pode embrulhar para viagem

22 de abril de 2012 | ligiafascioni
Sorvete mais gostoso por Storm Design

Sorvete mais gostoso por Storm Design

Toda vez que se fala em design de embalagens, empre aparece a pergunta: mas isso é design gráfico ou design de produto? Na verdade, é as duas coisas. O designer de embalagem precisa dominar as técnicas do design gráfico para elaborar rótulos e também do design de produtos para pensar o invólucro propriamente dito. Como se isso fosse pouca coisa, o sujeito também tem que conhecer a fundo todos os materiais e processos industriais disponíveis. Definitivamente, design de embalagens não é para amadores. O ideal é que um profissional de marketing e um publicitário também façam parte da equipe que vai fazer um simples biscoitinho provocar furor nas prateleiras.

Mas olha só que interessante: faz tempo que já se percebeu que a tendência dos negócios não beneficia os biscoitinhos e margarinas da vida. A nata da lucratividade não vai mais estar em vender coisas físicas – basicamente, a grana vai para as mãos de quem oferecer serviços. Claro que eles precisam ser originais, suprir demandas que ninguém imaginou antes, e, além disso tudo, terem valor para quem os compra. Imagine o mais sofisticado celular que existe. Sem serviços que o façam funcionar, ele é apenas lixo. Não adianta alguém oferecer a você uma Ferrari a preço de banana se não existir nenhuma oficina no Brasil que possa fazer a manutenção da máquina ou não tiver gasolina para ela.

Beleza, então quem vende serviços como um dentista, um palestrante ou um advogado, não precisa se preocupar com a embalagem, já que vende coisas intangíveis, certo?

Aí é que boa parte desses profissionais erra feio. É que para serviços, que dependem basicamente da credibilidade que conseguem comunicar, as técnicas de convencimento e persuasão precisam ser muito mais sofisticadas. E para isso, é justamente a embalagem que vai ajudar.

Como assim? Serviços não são invisíveis, intangíveis, incheiráveis e intocáveis? Então como é que a gente embrulha isso?

Bem, vamos pensar juntos. Uma embalagem serve basicamente para proteger, conservar e transportar o produto. Menos basicamente, serve também para comunicar o que esse objeto tem de tão especial, para informar o seu conteúdo, posicionar a empresa que o fabrica (e vende) e para seduzir o comprador. A embalagem, nesse caso, também carrega uma marca que garante a procedência e a qualidade do que tem lá dentro. Mas então, como é que a gente vai fazer isso com um serviço?

O serviço é um produto intangível, mas não precisa ser invisível. Em geral, alguma coisa física é entregue: seja uma carta, um manual, um relatório, um cronograma, um plano de ação, um projeto, até mesmo apenas uma resposta para uma pergunta, enfim, uma informação importante para alguém que está pagando por ela. E já que é importante, precisa também parecê-lo por uma questão de coerência.

A folha de papel onde essa jóia está escrita precisa estar à sua altura, assim como a pasta, o envelope, a qualidade da impressão, a encadernação e tudo o mais. O mesmo vale para a linguagem, a concisão, a correção gramatical, a diagramação; se você for ver, é tudo embalagem. São coisas que valorizam e posicionam o conteúdo, que o protegem, que ajudam a construir aquela marca que garante a procedência e a qualidade.

Se nada físico for entregue, convém também caprichar: contatos telefônicos realmente eficazes, sites bem projetados e com design atraente, ambientes de atendimento que funcionam.

Ninguém, a não ser um expert, saberia reconhecer um diamante raro se ele não estiver bem lapidado e numa caixa de veludo. Com os serviços, é a mesma coisa. Como nem todos os clientes são experts e conseguem reconhecer um verdadeiro tesouro à primeira vista, convém dar uma ajudinha. Mas claro, lembre-se que não funciona embalar porcarias em caixas de marfim.

Então, não economize em papelaria e cartões de visita. Não dispense a ajuda de um bom designer para criar um ambiente ou elaborar um site. Faça o melhor que puder. Lapide seu português, burile seu estilo, capriche na revisão. Os perfumes mais caros têm sempre embalagens lindíssimas, já que um líquido desbotado dificilmente conseguiria despertar tantas fantasias.

Duvido que os fabricantes de cosméticos franceses tivessem coragem de cobrar aqueles absurdos se as embalagens fossem de plástico descartável. É claro que o valor não está só na embalagem; há pesquisa, desenvolvimento, qualidade das matérias-primas e muita coisa por trás, mas é preciso ser coerente. Big Mac. Starbucks. Coca-cola. Você realmente acha que a embalagem não faz mesmo diferença?

Assim, pense bem. Não enrole o seu tesouro em jornal. O cliente pode pensar que é apenas peixe e vai querer pagar preço de feira.

Tatuagem no local de trabalho. Pode?

13 de março de 2012 | ligiafascioni
Sim, essa tatuagem é minha...

Sim, essa tatuagem é minha...

Meu e-mail está parecendo consultório sentimental de rádio popular; parece que as pessoas combinam os assuntos. Agora meus consulentes querem saber se podem usar piercing e tatuagem no local de trabalho. A resposta não é tão simples quanto parece, vamos lá.

As roupas, o corpo, a maneira como a gente se veste e se movimenta comunicam muito sobre o ser humano que está carregando isso tudo. A gente usa esses recursos para se expressar e se mostrar para o mundo; para marcar posição.

Não custa lembrar, isso nada tem a ver com recursos financeiros. Já cansei de falar aqui que uma das pessoas mais elegantes, dignas e com atitude profissional exemplar era uma varredora de rua que conheci; finíssima. E o programa “Mulheres Ricas” está aí para provar que boas maneiras e elegância não estão à venda nas lojas para quem quiser comprá-las.

Pois é, então nosso corpo é uma ferramenta poderosíssima para expressar quem a gente é e o que pensa dessa bagaça toda; fato. Quando a pessoa faz uma tatuagem, há um monte de mensagens implícitas e explícitas sobre como ela vê o mundo (depende do desenho, do tamanho, do lugar, da quantidade, da postura e da roupa que vai junto, entre outras coisas).

Geralmente quem faz uma tatuagem agressiva, usa um alargador na orelha ou um piercing no rosto, demonstra algum tipo de revolta com o estado vigente das coisas, algum inconformismo com as regras e “com tudo isso que está aí“. É também uma forma de se destacar na multidão, de mostrar que é diferente, de não ser “enquadrado” no sistema. Claro que essa é uma interpretação genérica e há quem faça tudo isso por uma questão estética, apenas porque acha bonito.

Bom, o ponto em que eu queria chegar é que, quando a pessoa trabalha numa empresa, ela está sendo contratada para transmitir e compartilhar a identidade dessa empresa. E, como já cansei de falar aqui, a organização tem que ter um discurso coerente e bem encaixadinho para ajudar a construir uma imagem de credibilidade.

Pois então. Se a identidade da empresa também é de inconformismo, de mudança, de ousadia e de quebra de paradigmas, nada mais adequado do que contratar pessoas com um visual, digamos assim, mais alternativo. É mais que coerente; é desejável. Ficaria muito estranho um sujeito de terno azul marinho e gravata, todo lambidinho, trabalhando num estúdio de tatuagem ou numa sex shop, por exemplo. Mas um juiz de bermudão e com uma sereia na testa também não faz muito sentido (o trabalho dele é fazer com que as regras/leis sejam cumpridas; é uma incoerência da parte dele contestá-las).

Resumindo: empresas mais ousadas têm maior probabilidade de lidar bem com esses acessórios; por outro lado, em organizações mais conservadoras e totalmente adaptadas às regras, um alargador do tamanho de uma argola de baiana do acarajé não se encaixa; é um ruído grave na sua comunicação.

Então, a resposta é: estude seu cliente. A empresa compra a maior parte das suas horas e lhe contrata para ajudá-la a comunicar a identidade dela. Se todas as peças que ela distribui por aí forem ousadas e transgressoras, capriche no visual hardcore e vá firme para a entrevista.

Mas se ela parecer mais convencional ou você passou num concurso público (já sabia muito bem onde estava se metendo, não se faça de desentendido), há duas opções: ou você esconde as manifestações mais radicais de sua arte corporal (não mata ninguém; conheço um monte de gente que tira o piercing para trabalhar numa boa) ou reavalie se você quer mesmo trabalhar lá.

Talvez você e a empresa não tenham um conjunto suficiente de atributos comuns para garantir a sintonia e a convivência pacífica; acontece. Nesse caso, mude para outra que seja mais compatível com sua identidade profissional. Quem contrata (no caso, o cliente) tem o direito de escolher como quer ser representado no mercado; quanto a isso, não há discussão.

E perceba que não tem ninguém errado nessa história. É só uma questão de adaptação a cada caso.

Curiosidade: tenho duas tatuagens antigas que são administradas conforme o cliente; na primeira reunião elas sempre estão escondidas. Se tiver espaço e for conveniente, a flor atrás do pesçoço e a borboleta no braço podem aparecer. Eu as fiz, primeiro, por questões estéticas; mas confesso que elas fazem parte de minha história e também representam meu lado revoltadinho adolescente sim, não vou enganar vocês não….

Qual é seu nome?

4 de março de 2012 | ligiafascioni
Ilustração: Victor Rodriguez

Ilustração: Victor Rodriguez

Muita gente não se dá conta, mas todos nós, como profissionais, também somos marcas. Independente da área, oferecemos serviços ao mercado de acordo com a nossa expertise. E como qualquer marca, precisamos nos diferenciar das outras pelo nome.

No caso de profissionais, não é necessária uma representação gráfica, até porque as oportunidades de usá-la em entrevistas e trabalhos para empresas são muito raras. Então, mesmo que exista, esse recurso acaba sendo sub-utilizado; a força da identificação, o que vai ser considerado, acaba sendo mesmo o nome do sujeito que deixou lembranças (boas ou más).

E quanto mais sofisticado e raro é o profissional, mais ele acaba se destacando e mais seu nome acaba sendo lembrado. Leva tempo para alguém competente se consolidar como referência no mercado, mas tenham certeza de que fica muito mais complicado quando a pessoa se apresenta como José Alberto Marques Mendonça Paes de Souza Rodrigues. Como qualquer marca, o nome profissional precisa ser curto e de fácil memorização.

Um exercício bom é tentar se lembrar dos profissionais que você mais respeita em qualquer área. Faça uma lista: vai ver que, salvo exceções, a maioria esmagadora usa apenas dois nomes (nome + sobrenome); no máximo três, quando o prenome é composto. Ex: Eike Batista, Steve Jobs, Bill Gates, Luís Fernando Veríssimo, etc

No caso de pessoas, a coisa fica confusa porque não é a gente que escolhe nossos nomes; são nossos pais. E eles nem sempre têm muita noção de marketing quando olham para o bebê bochechudo. Dependendo da criatividade dos progenitores, o sujeito fica em situação bem delicada.

Se a pessoa com nome difícil (ou constrangedor) é artista ou político, a solução é simples. É só escolher um nome artístico sem necessariamente ter relação com o nome verdadeiro. Nesse caso, o compromisso é com o estilo, com a identidade do profissional em questão.

Vejamos dois ótimos exemplos de políticos.

Luís Inácio da Silva não é um nome de destaque. Além disso, o político sempre foi conhecido pelo seu apelido Lula. Apelidos devem ser adotados com bastante comedimento, pois geralmente são utilizados em círculos mais íntimos, mas como o objetivo era o de se aproximar das pessoas de maneira totalmente informal e popular, o apelido aqui se encaixa bem. Deu tão certo que acabou se incorporando depois ao nome, como no caso do Pelé.

Já Fernando Henrique Cardoso é um daqueles casos difíceis de nomes compridos. Mas o perfil do profissional sempre foi acadêmico (área onde não se utiliza nomes artísticos) e solene. O nome completo acaba representando um uso mais formal e menos popular, bem de acordo com o perfil do profissional em questão.

Nos dois casos, a escolha foi muito coerente e apropriada.

Outros políticos, que ficaram famosos em atividades artísticas com forte apelo popular, levam o o nome profissional de uma área para outra: Ratinho, Mão Santa, Agnaldo Timóteo, Tiririca, etc.

Nos esportes, acontece fenômeno semelhante com relação ao estilo: para se aproximar dos torcedores, os jogadores acabam simplificando ao máximo e usando um nome só (até porque senão não cabe na camiseta): Neymar, Romário, Pelé, Oscar, Bernardinho, Ronaldo, Robinho, etc.

Se o esporte é menos popular, como tênis, natação, ginástica artística ou automobilismo, eles ganham sobrenomes, veja: Gustavo Küerten, César Cielo Diego Hipólito, Daiane dos Santos, Airton Senna. No caso de Gustavo, ele é um sujeito tão acessível que ganhou até o apelido carinhoso de Guga, coisa incomum de acontecer em um esporte como o tênis.

Ok, mas você não é cantor, ator, apresentador, político ou atleta. Você é publicitário, contador, administrador, designer, engenheiro, dentista, psicólogo ou qualquer outra profissão menos, digamos, glamourosa do ponto de vista midiático. Mesmo assim você precisa de uma marca. As pessoas precisam se lembrar de você. Vamos então a algumas dicas:

1. Na medida do possível, tente sempre usar a fórmula simples (nome + sobrenome).

2. Evite apelidos; eles foram criados para ser usados na intimidade, pelos amigos ou família. Artistas e políticos, na maioria das vezes, não se importam tanto em expor a privacidade, faz parte. Mas nas profissões mais convencionais, convém manter uma certa formalidade no contato (confesso que teria dificuldades em contratar um contador que coloca Totó em seu cartão de visitas; ou um advogado conhecido por Zé).

3. Dispense abreviaturas. Para que colocar José T. S. F. de Souza? Use José de Souza, que é só o que as pessoas vão se lembrar mesmo; as abreviaturas acabam funcionado como ruído e dificultando a memorização. A não ser que seu primeiro nome seja muito constrangedor, como um professor meu chamado Cornélio. Ele sempre assinava C. de Almeida, por motivos mais que justificados, e a marca ficou; poucos sabiam o que significava o C.

4. Seja coerente em todos os meios de comunicação. Não adianta ter um cartão de visitas com Fabíola Almeida se o endereço de e-mail é fadadanoite@hotmail.com. Já tive um conhecido cuja página no LinkedIn era vivalavida; complicado de conseguir um emprego assim. Para fins profissionais, seja o mais formal possível e use sempre o mesmo nome.

5. Se você tem um sobrenome estrangeiro, de difícil pronúncia, certamente o risco das pessoas escreverem seu nome errado é maior; por outro lado, haverá menor probabilidade de ser confundido com outros. Certamente nenhum consultor aconselharia a alguém ter o nome artístico de Arnold Schwarzenegger, mas ele teimou e deu certo. Há que se analisar cada caso pesando os prós e os contras.

6. Se você tem um nome comum, como José da Silva, fica bem difícil conseguir um endereço de e-mail exclusivo, assim como outros identificadores em redes sociais. Aí, há que se usar a criatividade: pode-se duplicar um dos nomes, usar números (que façam algum sentido) ou acrescentar o título profissional. Mas atenção: inserir Y, TH, W, duplicar consoantes ou inserir apelidos não configura solução para esse caso, ok?

7. Alguns profissionais liberais teimam em ter um nome comercial que nada tem a ver com o seu. Por exemplo: o designer Márcio Alves trabalha sozinho em seu escritório e não pretende se transformar numa corporação.  Por que ele precisa de uma placa como o nome Ideia Nova na porta? Assim ele acaba concorrendo consigo mesmo na cabeça das pessoas. Elas devem se lembrar da Ideia Nova ou do Márcio Alves?

8. Se você é funcionário de uma empresa de grife, fuja da tentação de usar a marca do lugar onde trabalha como “sobrenome”. Se o sujeito fica conhecido como o Roberto da IBM, o que acontecerá quando ele sair da empresa e for trabalhar em outra? Por isso, convém ter sempre um endereço de e-mail para uso próprio, independente de sua situação profissional. Perdi contato com vários conhecidos porque eles mudaram de emprego e, por conseguinte, perderam seus endereços de e-mail.

9. Nomes engraçados, como Pinto Souto ou Pinto Brochado  (sim, existem) justificam omissões ou adaptações. Ninguém quer ser associado com piadas, não é mesmo? Escolha um e use apenas ele.

10. Mulheres que mudam de nome quando se casam, cuidado. Ao usar o nome novo, vocês acabam “apagando” o histórico profissional com o nome antigo e causando certa confusão. A dificuldade é tamanha que há muitos casos em que as pessoas se separam e acabam continuando o uso do sobrenome do ex, para não ter que recomeçar (ex: Luiza Brunet, Angela Merkel). A decisão de mudança de nome tem que ser bem pensada.

Só uma curiosidade: meu nome completo é Ligia Cristina Fascioni (por 8 anos já fui também Corrêa, do primeiro casamento). No meu primeiro livro, assinei como Ligia Cristina Fascioni Corrêa (falta de noção grau 10; acontece).

É claro que o nome é seu e você usa como quiser, mas convém pensar antes nas implicações de cada decisão. E aí, pensou bem? Qual é seu nome mesmo?

Profissional inovador

14 de novembro de 2011 | ligiafascioni
Fotografia: Dominik Śmiałowski e Monika Prus

Fotografia: Dominik Śmiałowski e Monika Prus

Esses dias dei uma palestra em Minas Gerais sobre o profissional inovador. O povo pediu um texto, então, ei-lo.

Comecemos a conversa esclarecendo o que vem a ser esse tal de profissional inovador. Quando a gente diz inovador, está falando daquele sujeito que usa a criatividade para gerar valor para o cliente e está sempre buscando oportunidades de fazer isso acontecer. A frase parece simples, mas é fácil esquecer que a referência é o cliente, esse ser que nos remunera pelo trabalho que fazemos, ou, em última instância, pela mudança que provocamos na vida dele.

É tentador cair na armadilha de investir tempo e dinheiro construindo uma coisa para a qual o cliente não está nem aí, mas que a gente acha que vai ser o máximo da inovação. Em se tratando de profissionais criativos, o ego é uma armadilha perigosa que nunca sossega. Inovação não é para ganhar prêmio ou fazer sucesso na balada, é para provocar mudança boa na vida dos clientes.

Dito isso, vamos aos hábitos que convém desenvolver para tornar a inovação uma prática cotidiana.

1. Não se acomode. O mundo é dos insatisfeitos, daquelas pessoas que não se conformam, que acham que se pode fazer melhor. O profissional inovador não poderia ser diferente, pois está sempre em busca de algo que ainda não existe; você jamais vai ouvi-lo dizer “é, nosso atendimento está ruim, mas há piores” ou “em time que está ganhando (ou empatando) não se mexe“. Nivelar por baixo não faz parte de seus princípios. Seu mantra é “mesmo que os clientes tenham elogiado, ainda podemos melhorar muito“.

2. Seja curioso. As experiências que a gente vive no dia-a-dia são a principal matéria-prima para criar. Inovação nada mais é do que a recombinação de informações que já existem para criar algo novo e de valor. Se a pessoa tem um repertório pobre e convencional, dificilmente vai conseguir fazer recombinações inéditas e valiosas. Se não tem elementos originais, não alimenta seus sentidos com sensações diferentes e inusitadas, corre o sério risco de cair no lugar-comum. Aí, babaus inovação. Experimente uma textura, sabor ou cheiro novo todo dia. Ouça sons que normalmente não escolheria. Dê comidinha nova para seus olhos. Sempre.

3. Não alimente preconceitos. Ok, essa é a mais difícil, pois a gente é geneticamente programado para ser preconceituoso (nosso cérebro categoriza as coisas para economizar energia e processamento), mas faça um esforço para não tirar conclusões antes de ter as informações completas. Se a gente não julga e não tenta encaixar as coisas em caixinhas estanques, o mundo fica maior e mais cheio de possibilidades.

4. Coloque-se no lugar do outro. O nome disso é empatia e faz a gente ficar muito mais tolerante com os erros alheios, além de ser ótimo para acabar com preconceitos. Também abre as portas da percepção para perceber coisas que antes passavam batido. Um bom jeito de potencializar a capacidade de empatia é fazer um curso de teatro. Quer mais empatia do que emprestar seu corpo para dar vida a um ser completamente diferente de você? Toda vez que estiver discutindo com alguém, proponha vocês trocarem de lugar e defenderem o ponto de vista um do outro. É uma experiência transformadora e nem dói tanto quanto parece.

5. Equilibre os lados do cérebro. O lado esquerdo é o racional, analítico, sequencial. O direito é emocional, sintetizador, simultâneo. O profissional inovador sabe usar os dois lados sem privilegiar nenhum em especial, para não ficar manco. A pessoa que é pura emoção e intuição não consegue converter suas ideias em realidade; então é como se não as tivesse tido. Quem é pura razão deixa escapar sutilezas que poderiam ser valiosas. Por isso é que quem usa um lado só, simplesmente não inova.

6. Tenha bom humor. Gente ranzinza gasta muito tempo reclamando das coisas e perde a chance de aprender com situações inusitadas; é como se fechasse as oportunidades para o cérebro “viajar”. Bom humor é essencial no processo criativo. Além disso, excesso de seriedade afasta as pessoas e isso é péssimo, haja vista o fato de que não é possível criar nada sozinho. Bom ter em mente que pessoas com competências diferentes das nossas são indispensáveis no processo de inovação — ninguém consegue ser bom em tudo e inovar sozinho.

7. Estude muito. Conhecimento não cai do céu, é preciso ralar muito, não tem como pular essa parte chata. Saber como executar e tornar real a ideia é tão importante como ter a ideia. Ainda mais porque o estudar amplia em muito a possibilidade de criar, já que aumenta a quantidade de matéria-prima que se tem para recombinar. Malcom Gladwell já demonstrou que não dá para ser excelente em nada se não dedicar pelo menos 10.000 horas ao tema que se quer dominar. Inovação não é exceção.

8. Saiba ouvir. Falar é bem legal, mas a gente aprende muito ouvindo, principalmente o cliente. Às vezes, de uma frase solta a gente consegue desenvolver uma ideia bem original. Ouvir pessoas, de uma maneira geral, é uma experiência enriquecedora, além de desenvolver a paciência, o que não é pouco. Não dá para inovar sem ouvir. Fato.

9. Pense a longo prazo. Faz parte do processo de inovação pensar em como aquela ideia pode se desenrolar no decorrer do tempo. Sustentabilidade não é só ecologia; trata de como manter a coisa funcionando no médio e longo prazos. De que adianta uma coisa ser bacana e encantar o cliente por um período curto, se depois ele quer mais e não consigo entregar? Ser consequente é essencial para inovar com responsabilidade.

10. Acredite no impossível. Já dizia o artista francês Jacques Cocteau: “Não sabendo que era impossível, foi lá e fez“. Isso resume bem o espírito da inovação. Certamente haverá muita gente para dizer que a ideia é impossível, que não dará certo. Se o profissional usou bem os lados esquerdo e direito do cérebro, já terá calculado os riscos e planejado o sucesso. A inovação é a arte de tornar possível o impossível, e todo profissional inovador sabe bem disso.

Alguém aí falou em ética?

29 de setembro de 2011 | albertocosta

Quando a Lígia Fascioni e eu estávamos desenvolvendo o programa de formação profissional chamado Atitude Pro, demo-nos conta de que o conceito de competência, tradicionalmente, inclui 1) competências intelectuais ou conhecimento, 2) competências técnicas ou habilidades e 3) competências éticas ou atitude. E concentramo-nos nessas últimas.

O primeiro desafio aos participantes do programa consiste em, no fim do primeiro módulo, desenvolver um Código de Ética Profissional individual. Ou seja, um esforço racional para definir intenção consciente (a respeito de identidademissãovisão de futuro e princípios, valores e crenças) com a qual conciliar decisões, ação e relacionamentos.

Foi uma grata surpresa, então, encontrar, em uma de minhas frequentes visitas a livrarias, a obra Ética pessoal para o mundo real: criando um código ético e pessoal para guiar suas decisões no trabalho e na vida, da dupla Ronald A. Howard e Clinton D. Korver, publicado em português pela M. Books por licença da Harvard Business Press.

Bem que eu gostaria de ter sido o primeiro a pensar nas coisas em que eles pensaram, mas não fico triste por aprender com eles. E gostaria de destacar algumas das ideias deles, com as quais estamos bem alinhados:

  • “ética define o caráter, (mas) ela pode influenciar ainda mais os relacionamentos” – Bingo 1!
  • a necessidade de fazer distinções entre “dimensões éticas, legais e prudenciais das ações”, entre “ética positiva versus negativa”, entre “ética baseada em consequência versus ética baseada em ação”, entre “raciocínio ético versus racionalização” – Bingo 2!
  • a sabedoria de reconhecer e manter consciência de nossas referências (modelos religiosos, familiares, profissionais) sem abrir mão de nossa responsabilidade individual – Bingo 3!
  • a opção por definir o valor ético de ações objetivas e não de intenções ou crenças teóricas – Bingo 4!
  • a disciplina de estabelecer padrões éticos para dirigir sua própria conduta e decisões e não para julgar outros por eles (eles reconhecem, entretanto, que há maneiras e ocasiões em que isso é possível e necessário, mas esse não é o propósito de um código pessoal) – mais um Bingo!

Além disso, o livro tem um lado “manual prático” – e ensina como elaborar seu código de ética. Mas, realista, em nenhum momento imagina que alguém terá, ao final, uma receita pronta para a tomada de qualquer decisão. Então, ele sugere que a opção pela ação implica a disposição por arcar honesta e responsavelmente com as consequências.

Assim, recomendo enfaticamente a leitura desse livro a todo profissional disposto a fazer boa filosofia para basear suas ações e relacionamentos.

Alberto Costa

10 mil horas

29 de setembro de 2011 | ligiafascioni

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Estou organizando material para um curso que integra um programa de liderança e cheguei na parte em que se discute a questão da competência.

É praticamente consenso em toda a bibliografia que competência é a combinação de conhecimentoshabilidadesatitudes para conseguir o resultado que se deseja. Sempre foquei muito na atitude e já explorei bastante o tema. Mas, pelo teor dos e-mails que venho recebendo ultimamente de estudantes e profissionais pedindo conselhos diversos, parece que está mais que na hora de tratar dos outros dois itens do tripé.

É que a moçada quer ser brilhante aos 18 anos de idade, de preferência sem perder tempo estudando ou fazendo estágios muito simples. E não é só isso não; a gente vê pessoas com 30, 40 anos de idade, esperando milagres acontecerem e, do dia para a noite, tornarem-se referência mundial e terem sucesso na carreira (onde entenda-se por sucesso o número de zeros da conta bancária e o volume de clipagem da assessoria de imprensa; mas isso é assunto para se discutir em outra ocasião).

Bom, começemos pelo mais básico: o conhecimento. Parece trivial, mas o povo não quer aceitar: para a gente ser bom em qualquer coisa, é preciso saber muito sobre ela. O bacana é que  o conhecimento pode vir de qualquer lugar: cursos, conversa, leitura, cinema, internet, viagens, observação e até televisão (claro que depende muito do assunto que você quer explorar). Observe que não há bem ou mal em nenhuma dessas formas; o problema é a pessoa querer que toda a informação saia de um lugar só, porque aí teremos uma distorção causada pela limitação da fonte. Não dá para aprender tudo só lendo livros, sem interagir com ninguém. Mas também não dá para achar que se pode saber tudo sobre matemática avançada acessando apenas o twitter. Sem chance. Pode tentar, eu garanto.

Mas a gente adora a história do cara que não estudou, não foi atrás, mas é um gênio. Isso meio que dá uma apaziguada na nossa falta de disciplina, pois a diferença mesmo vem do equipamento de fábrica do sujeito. O pessoal vibra quando o fulano tira dez na prova e faz questão de dizer que não estudou; que escreve maravilhosamente sem nunca ter lido um livro; que fala 5 línguas sem nunca ter aberto um dicionário. Lenda. Algumas pessoas têm mais facilidade que outras em algumas áreas, mas ninguém se aprofunda num assunto sem estudar muito sobre ele. Einstein não teria desenvolvido a teoria da relatividade se tivesse passado 8 horas por dia andando de skate. Oops, então não vale andar de skate?

Vale sim, e muito, desde que você queira ser especialista nisso. É justamente sobre essa questão que vamos falar agora: a habilidade, que consiste em transformar o conhecimento em alguma coisa aplicável. A habilidade é desenvolvida principalmente no neocórtex, que é a parte do cérebro que automatiza os movimentos. Então, se você quiser ser campeão mundial de skate, tem que treinar trocentas horas por dia, dormir e acordar em cima da prancha. Ninguém acorda um dia de manhã, se inscreve no campeonato e tira o primeiro lugar. Se quiser ganhar as olimpíadas de matemática, dá-lhe fazer exercícios que podem cair na prova. Se quiser ser campeão de xadrez, durma e acorde sobre um tabuleiro.

Um instrumentista virtuose pratica muitas horas por dia para ser realmente competente no que faz. Ele tem que ensinar as mãos a trabalharem praticamente sozinhas enquanto interpreta a música. Mais ou menos quando a gente está aprendendo a dirigir. Ninguém senta num carro e sai pilotando esplendidamente na primeira vez que senta no banco do motorista. O primeiro quadro que o Da Vinci pintou na vida, garanto, não era nenhuma maravilha. Assim como a primeira redação de Goethe. E nenhum queniano ganha uma maratona correndo apenas nos finais de semana ímpares, quando não chove.

E não estou falando isso por achismo não. Quem duvida, deveria abandonar o texto aqui mesmo e mergulhar no ótimo “Outliers: the story of success” de Malcom Gladwell. Entre outras coisas, ele consegue demonstrar, em suas pesquisas, que qualquer profissional brilhante pratica seu talento muito mais horas por dia que os medíocres. Airton Senna aprendeu a pilotar bem na chuva porque enquanto os outros iam comer pipoca no cinema quando o céu ficava preto, ele corria para os boxes praticar. Pelé treinava mais que todos os seus amiguinhos de escola juntos. O Guga não chegou a Roland Garros sem gastar e quebrar muita raquete enquanto a galera assistia Malhação. O campeão mundial de tênis de mesa, seja lá quem ele for, não brinca só nas festas de família. O negócio é sério mesmo.

Malcom ainda conclui que você não consegue ser excelente em nenhuma área se não tiver pelo menos 10 mil horas de exercícios práticos no assunto. Isso, obviamente, não garante nada, pois há muitas outras variáveis, mas sem as tais horas, não rola (em engenharia chamamos de requisito indispensável, mas não suficiente).

É pessoas, milagres não acontecem, não tem mesmo como pular a parte chata. Agora, com licença, que eu quero aprender alemão e tenho um monte de lição para fazer; pelas minhas contas, ainda faltam 9.840 horas de dureza.

Auf Wiedersehen!

Quer um aumento?

14 de julho de 2011 | ligiafascioni

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Vou confessar uma coisa: adoro ouvir pedaços de conversas quando estou em um café ou restaurante. Como escuto só partes da história, fico imaginando como se desenrola o resto.

Pois ontem me sentei numa mesa ao lado de dois rapazes de terno que discutiam sobre a necessidade de um aumento de salário. O pedaço que eu peguei foi esse aqui:

— Faz dois anos que estou nesse emprego e até agora não ganhei nenhum aumento.

— Você tem que pedir, senão eles não dão.

— Mas como vou pedir? Tem clima para isso não… fico nervoso, cara…

— Olha, a sua faculdade não aumentou? Então fala que está precisando de mais dinheiro… ou então explica que o salário não está dando, sei lá.

— Boa ideia. Mesmo assim, sei não se vai dar certo, meu patrão é meio pão duro…

Pois é, pão-duro ou não, se o sujeito tiver pelo menos dois neurônios e noções básicas de administração, o moço vai ficar mesmo sem aumento. E ele deve, inclusive, rever as amizades, pois os conselhos do amigo são péssimos; duvido que já tenha conseguido alguma coisa com esses argumentos brilhantes.

Uma coisa óbvia que nem todo mundo se dá conta é que, quando se contrata alguém, há um acordo. O contratado deve fazer determinadas tarefas e assumir algumas responsabilidades. Por esse valor que agregará à empresa, será remunerado de acordo com o acertado. E ponto. Se mesmo depois de anos as tarefas ou responsabilidades continuam as mesmas, por que o salário deveria mudar?

Um porteiro, por exemplo, que seja sempre porteiro, mesmo que trabalhe 20 anos na mesma função, com certeza não merecerá aumento. Fazer bem o seu trabalho é o combinado; ser competente, atencioso, responsável, é o mínimo que se exige de alguém com esse cargo. O salário contratado para um porteiro é para pagar isso mesmo.

Com o rapaz do café, a história é a mesma. Se ele continua executando as mesmas funções de dois anos atrás, por que quer ganhar aumento? Para mudar o valor do contrato, é necessário que tenha havido alguma alteração no escopo. Mais responsabilidades, mais valor, salário maior. Senão, nada feito.

E a coisa pior que uma pessoa pode argumentar ao pedir a revisão do contrato (é exatamente isso que ele faz quando pede aumento) são suas necessidades pessoais. Já pensou, você vai comprar pão e ele está custando mais caro, sendo que o padeiro justifica que está precisando de dinheiro porque o filho foi fazer intercâmbio? O que você faz? Vai comprar pão em outra padaria, né? As contas do padeiro são problema dele, você não tem nada a ver com o intercâmbio do filho dele. Se ele precisa de mais dinheiro, invente pães mais caprichados, agregue mais valor. Choramingos não seduzem ninguém. Nem você, nem o moço do café, garanto.

A única coisa que justifica o aumento de preço é o aumento de valor do ponto de vista do cliente (sempre). A gente paga mais caro se acha que a coisa vale. Sabemos que essa percepção é bastante subjetiva, por isso é tão importante fazer a gestão da marca.

Profissionais que construíram uma marca bem consolidada podem cobrar mais daqueles clientes que conseguem perceber valor no que ele está entregando. Se o chefe do rapaz não está percebendo aumento de valor no trabalho dele, se ele não conseguir mostrar a diferença que está fazendo na empresa, não adianta mesmo se fazer de coitado.

Em resumo, quem está pagando é que decide se o preço é justo ou não. Se a outra parte discorda e acha que vale mais, convém prospectar outros clientes no mercado. Simples assim.

Mas o que me chamou atenção mesmo foi outro aspecto da conversa. É possível uma pessoa ficar dois anos inteiros fazendo exatamente o mesmo trabalho, sem ter tido nenhuma ideia original para acrescentar ao contrato ou assumido mais responsabilidades?

Pois é, agora só falta mesmo o moço colocar no currículo que é proativo…

Lígia Fascioni | www.ligiafascioni.com.br

Venda mais

20 de junho de 2011 | ligiafascioni

A revista Venda Mais desse mês traz uma entrevista comigo sobre autoconhecimento e vendas. O título é “A chave mestra: entenda porque o autoconhecimento pode ser fundamental para otimizar a comunicação do gerente e sua equipe de vendas“.

A matéria é da jornalista Pauline Machado e ela conseguiu ser bem fiel ao que falei (infelizmente, não é coisa muito comum no meio; às vezes o repórter faz uma mistura do que a gente fala e só nos resta lamentar depois da coisa impressa). Ainda bem que não foi o caso aqui, a Pauline é muito competente!

Para ler, é só clicar na imagem correspondente à página para ver o pdf, ou então salvar para ler no seu computador.

Profissional commodity

1 de abril de 2011 | ligiafascioni

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Mesmo não sendo especialista em carreiras, é muito comum receber e-mails de pessoas pedindo uma luz. Como sou adepta da “regra de ouro”, sempre respondo da melhor maneira que posso, até para compensar o tanto de gente bacana que me ajudou ao longo da vida nessas dúvidas existenciais tão incômodas.

Recebi semana passada a mensagem da Vera (mudei o nome para preservar a identidade). Ela é bióloga, mas está muito insatisfeita com o salário de menos de R$ 1 mil. A Vera mora num pólo petroleiro e começou agora a cursar engenharia nessa área, pois quer muito melhorar sua situação financeira. Por sorte, a moça conta com o apoio da família, mas está bem perdida, pois o curso é bem longo e ela queria uma solução mais rápida para o problema. A Vera acredita que, de alguma maneira, posso ajudá-la. Olha, vou tentar, mas não sei se ela vai gostar do que vou dizer. Estou publicando o caso aqui porque penso que tem muita gente em situação parecida; vira e mexe alguém pergunta como está o mercado para a profissão X; se ganha bem e tals. Vamos lá, então.

A primeira coisa a se analisar é que há biólogas ganhando muito bem. São poucas, é verdade, mas existem (eu mesmo conheço algumas). Sabe por que elas têm tanto sucesso? Porque estão oferecendo ao mercado algo que as outras biólogas não oferecem – essas profissionais de sucesso fizeram cursos e especializações, desenvolveram métodos e criaram valor. Além disso, investiram em uma rede de contatos e na comunicação de sua competência. Publicam artigos, compartilham conhecimentos, desenvolvem habilidades. E são referências na sua área.

Em qualquer profissão é assim: existe uma massa enorme que vive de salário e faz o que os outros mandam fazer; essas pessoas são facilmente substituíveis e são aquelas focadas no salário base e no dissídio da categoria. Morrem de medo de perder o emprego, com toda razão, pois sãoprofissionais commodities. Sabe o que é commodity? É arroz, feijão, açúcar. Aquelas coisas que chamamos pelo nome genérico, pois não importa muito de que marca sejam; cumprem a função de maneira muito parecida. Então, quando uma empresa diz que precisa contratar 15 biólogas ou 23 engenheiros, serão, na maior parte, commodities. Vão ganhar um salário padrão e os tais tickets e vales.

Mas há também os profissionais de marca, aqueles que custam mais caro. Eles têm um preço maior porque geralmente entregam mais valor. E, não custa lembrar, valor é sempre do ponto de vista de quem está pagando, ou seja, do cliente. Uma pós-graduação só é valor para o cliente se realmente o conhecimento for aplicado para fazer alguma diferença perceptível. Se a pessoa é cheia de diplomas mas faz exatamente o mesmo trabalho do que quem tem apenas a graduação, pra que pagar mais caro, não é mesmo? Você quer um encanador com MBA custando 10 vezes mais? Não, a gente quer alguém que conserte a torneira. Se tem um monte de gente que conserta torneiras, vou escolher pagar o mínimo. Agora, se o encanador com MBA bolou um sistema revolucionário para economizar 90% de água sem ter que mexer nos canos que já existem, ele pode custar mais caro sim, e muita gente vai contratá-lo.

Pense nas coisas que você consome: algumas você escolhe pelo preço, outras, você paga mais caro porque faz questão daquela marca. Não importa se o objeto vale de fato realmente mais, pois valor é um conceito subjetivo. Tem que valer mais para quem está pagando e ponto final. Pode ser que eu me sinta mais confiante, pode ser que todo mundo do mundinho fashion use ou pode ser que eu pague o triplo do preço em um sabonete só por causa da embalagem. Isso não vem ao caso; o que importa é que o cliente percebe valor, e por isso ele paga mais. Não custa lembrar que comunicação, nesse caso, é essencial. Tem todo um trabalho de marketing pessoal e construção da marca que precisa ser feito para que os clientes saibam que você existe e desejem o que você tem para oferecer.

O que será que é valor para quem contrata uma bióloga? Quais as oportunidades que existem de criar algo que ninguém pensou ainda? Sei lá, pode ser que você goste de desenhar e monte um curso de biologia avançado em quadrinhos. Ou se especialize no desenvolvimento de jogos para celular envolvendo conteúdo de zoologia para vestibulandos. Sua cabeça, sua paixão, sua coragem e criatividade são o limite. O foco precisa ser criar valor, não o que será escrito no contracheque (que, nesses casos, muitas vezes sequer existe).

Mas repare que é preciso que a pessoa tenha paixão pelo que escolheu estudar. O bom é que, em se tratando de vida profissional, fidelidade não é qualidade. Seja promíscua, misture áreas de conhecimento diferentes, explore novas possibilidades. Talvez você nem goste tanto de biologia, mas pode aproveitar o conhecimento que já tem para misturar algo que você adore e fazer algo novo que tenha valor para as pessoas.

Investir em outra profissão mirando no contracheque é o caminho certo para repetir a situação atual: você se forma e vira commodity, cujo principal objetivo é ficar prestando atenção em quanto foi o dissídio da categoria esse ano. Desperdiça todo o conhecimento de acumulou e vive uma vida de risco (apesar de parecer o contrário); viverá com medo da empresa demiti-la por causa da crise e reclamará do governo até se aposentar miseravelmente pelo INSS.

Ah, e vale lembrar: não quer investir, não quer ousar, prefere simplesmente aplicar as regras burocraticamente e viver entediada, porém, com o contracheque gordinho, faça um concurso público daqueles que pagam bem. Você até pode entregar bastante valor (conheço funcionários públicos excelentes), mas a acomodação não apresentará um risco sério para sua carreira.

Mas se você quer mais que dinheiro, quer se realizar profissionalmente e pretende fazer realmente diferença na vida das pessoas destacando-se no meio da multidão, ponha a cabeça para ferver. Crie alguma coisa nova, descubra que conhecimentos você precisa adquirir para colocar isso em prática (pode ser que uma pós-graduação resolva). Isso pode se refletir no contracheque obeso ou num contrato sensacional; ou pode dar tudo errado. É um risco, claro.

Mas acredito que risco mesmo, daqueles de morte, é passar a vida como commodity.

Lígia Fascioni | www.ligiafascioni.com.br

Segredo não é para contar…

23 de março de 2011 | ligiafascioni

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Faz tempo que procuro um livro específico sobre teoria das cores e, como freqüentadora contumaz de livrarias, estou ficando cada vez mais irritada. Olho com cuidado, busco, reviro tudo e necas de encontrar o tal livro. Em compensação, acho o tal “O segredo” em verso, prosa, ilustrado, box de luxo, comentado, capa dura, brochura, light, poster, pocket book e até em DVD. Pirâmides enormes. Cartazes impactantes. Uma verdadeira overdose de indiscrição para uma coisa que se auto-intitula secreta.

Já demonstrei várias vezes aqui a minha resistência assumidamente preconceituosa contra livros de auto-ajuda, mas agora me rebelei e não quero nem saber, resolvi tocar o dedão bem no meio da polêmica.

Não sou nenhuma especialista em filosofia, aliás, meus conhecimentos na área são bem parcos, mas é dela mesma que vou me valer para argumentar. Minha opinião é a seguinte: a auto-ajuda pode até realmente ajudar algumas pessoas (principalmente seus autores), mas, no mais das vezes, contribuem mesmo é para detonar a auto-estima dos incautos. Eu explico.

Assim como o tal “segredo” e tantas outras obras afins, o mantra repetido à exaustão reza que você pode tudo, que mudar a sua vida só depende da sua força de vontade. Se você ainda precisa de ônibus para se locomover, a Playboy não te chamou para posar nua, sua conta bancária não éPersonnalité, suas noites de sábado não saem nas colunas sociais, seu marido está te traindo com a vizinha, sua TV não tem 296 polegadas, seus filhos são umas pestes, seu chefe tem mau hálito, você está 15 kilos acima do peso e seu purê de batatas mais parece cola, a culpa é toda sua! Faltou força de vontade! Você não mentalizou o suficiente! Não seguiu os 7 passos! Os livros bradam aos berros (com ou sem ilustrações): sua vida só é uma droga porque você quer! Ou seja, o ser humano normal que não freqüenta a capa da Caras pode escolher entre se achar burro, masoquista ou incompetente.

Então, o que nos resta? Escondida lá no fundo da livraria, a Marilena Chaui, no excelente “Convite à filosofia“, explica que um dos legados mais importantes da filosofia grega para o pensamento ocidental é a formalização da diferença entre o que é necessário (o que não pode ser senão como é) e o contingente (que pode ou não ser). Além disso, os gregos nos ensinaram que o contingente pode ser dividido entre o acaso e o possível.

Olha só: o necessário é aquilo que a gente não pode escolher, pois acontece e vai acontecer sempre, independente da nossa vontade. Assim, sempre haverá dias e noites; o tempo vai passar; todas as coisas serão atraídas pela gravidade; você vai morrer algum dia.

Já o contingente é aquilo que pode ou não acontecer na natureza ou entre os homens. Quando o contigente é do tipo acaso, também não está em nosso poder escolher. Exemplos de acaso: não posso determinar se um motorista bêbado vai ou não abalroar meu carro e provocar um acidente; não posso optar por ser ou não assaltado; também não posso arbitrar que meu pai seja ou não um jogador compulsivo nascido na Croácia.

Que coisa, heim? Então posso escolher nada? Bem, pode. É justamente por isso que existe o segundo tipo de contingente: o possível. O possível é tudo aquilo que está em meu poder mudar ou não. Posso optar por fumar ou não; posso ficar até mais tarde estudando ou vendo televisão; posso ouvir uma fofoca calada ou contar para todo mundo; posso ler o texto até o fim ou parar por aqui.

Sacou como os gregos eram espertos? Essa estrutura lógica de pensamento nos permite concluir duas coisas importantíssimas: nem somos guiados cegamente pelo destino, daquele tipo “fui despedida porque Deus quis“, nem tampouco podemos tudo, mover céus, montanhas e mares ao sabor dos nossos desejos.Algumas coisas a gente pode mudar, outras, não!

Uma parte das coisas depende realmente da nossa força de vontade, da definição de objetivos, de nossas ações; mas outra parte, não desprezível, depende do contexto, está fora de nossa alçada. Veja só: adoro ler porque cresci em uma casa cheia de livros. Meus pais escolheram isso, apesar de nenhum dos dois ter tido oportunidade de fazer um curso superior. Que mérito há em me comparar com alguém que nasceu em uma favela e engravidou do primeiro filho aos 13 anos? As condições são absolutamente diversas, não se pode medir forças de vontade de maneira tão rasa e simplista!

Alain de Botton, um professor de Filosofia da London University, publicou “Desejo de Status” justamente falando sobre a situação constrangedora com que a modernidade acabou envolvendo a maior parte da população do mundo.

Um dos grandes paradoxos que criamos é que os nossos ideais de igualdade democrática contribuíram ainda mais para a desigualdade. Em toda a história, por razões diversas, sempre houve pouca gente com muita coisa e muita gente com quase nada. Mas se antes, pelo sistema de castas ou pouca mobilidade social, o sujeito era um pobre camponês porque tinha nascido assim, era o seu destino, não havia muito o que fazer a respeito, na nossa pseudo igualdade ele é um incompetente. O pressuposto é de uma simplicidade cruel: se todos nasceram iguais e com o destino nas próprias mãos, então o sucesso de uns poucos deve ser resultado de seu talento e força de vontade. Já a miséria, as dificuldades e o fracasso social são culpa exclusiva dos ineptos e incapazes.

A busca pelo status e pelo reconhecimento é angustiante. O sucesso é medido por dinheiro, beleza, poder e fama. O tal “segredo” ensina você a ganhar milhões ou conseguir o emprego dos sonhos. O livro ao lado ajuda você a conseguir um marido rico. O outro, a perder muitos quilos sem sacrifício. A referência passa a ser o que os outros consideram o ideal, não você.

É, gente, aquela gordinha solteira que não quer fazer uma pós-graduação, acha normal ser empregada e considera o Uno Mille um carrão, só pode ser uma acomodada da pior espécie, merece mesmo todos os males que a afligem.

E sabe o que é pior? Em vez da Marilena Chaui ou do Alain de Botton, as pessoas insistem em dar para ela livros do tipo “o segredo” no aniversário. Ninguém merece.

Lígia Fascioni |  www.ligiafascioni.com.br

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Publicado originalmente em www.ligiafascioni.com.br/blog em agosto de 2007.

Bem na foto

12 de janeiro de 2011 | ligiafascioni

Fotografia: Daniele P.

Fotografia: Daniele P.

Nesses tempos internéticos em que a gente vive, onde as redes sociais são responsáveis por boa parte dos contatos profissionais, há que se tomar bastante cuidado com as fotos que colocamos lá. Mesmo que o sujeito faça um perfil só para a família e a “galere“, ninguém pode impedir que o seu chefe (ou futuro potencial chefe) também dê uma espiadinha. That’s it, não há o que fazer. Postou, se expôs.

Para quem trabalha com serviços, como eu, a coisa é automática: quem vai me contratar sem me conhecer pessoalmente, com certeza “dá um google” antes para formar uma opinião. Inclusive, não poucas vezes, é lá mesmo que a pessoa fica sabendo que existo. Para quem tem um emprego, a coisa não é tão diferente, afinal, se você bate ponto numa mesa de trabalho perto da máquina de café, nada garante que vai continuar dominando o local na semana que vem. Aí, é articular novas oportunidades profissionais — e você não vai escapar de uma “googlada“, pode ter certeza.

Muito e exaustivamente já se falou que há que se ter cuidado com o que se posta, twitta, comenta, e por aí vai. Cabeças rolam por causa de dedos descontrolados com muito mais frequência do que se imagina. Mas vejo o pessoal falar pouco das fotos, que são tão importantes quanto os textos.

Falar da inconveniência de postar fotos de bebedeiras “winehousicas” ou intimidades (ortodoxas ou não) chega a ser tão óbvio que vou me abster; quem faz esse tipo de coisa certamente não lê essa coluna.

Estou falando daquela foto que apresenta você a desconhecidos; a foto do seu perfil. Aquela que vem junto para apresentá-lo a  alguém que quer ser seu amigo no Facebook ou no LinkedIn, por exemplo.

Esses dias recebi um convite de uma pessoa que parecia tão mal humorada que fiquei até com medo. Tem muita gente com cara de bronca e poucos amigos, pode reparar. Como é que isso pode depor a favor da pessoa? Se alguém se apresenta para o mundo de cara fechada assim, como será o figura no dia-a-dia? Pessoalmente, quando você é apresentado alguém, também faz essa cara de quem chupou limão?

Há quem prefira ser associado a um tórax todo trabalhado em ferro ou por alguns mililitros a mais na comissão de frente e com certeza isso conta pontos na impressão que a pessoa vai ter do tal contato.

Não chega a prejudicar em alguns ramos profissionais; mas é preciso ter consciência do impacto que a decisão de se expor assim provoca, e, principalmente refletir se a profissão que a pessoa escolheu para ganhar a vida é compatível com o que se está mostrando. Se o profissional em questão é modelo e a foto está bem feita, problema nenhum. Mas se é especialista em finanças, o currículo todo será coberto com a sombra do bombado corpitcho.

Também há quem use caricaturas ou poses engraçadas (adequadíssimo se for artista ou ilustrador; arriscado se for advogado ou juiz); quem prefira aparecer de costas (fugindo de quê?); quem opte por mostrar uma parte do corpo menos comprometedora como mãos, um olho, o pescoço (não entendo a mensagem); quem apareça com os filhos e o cônjuge (é de graça; não dá para cada um ter o seu?); de perfil (enigmático); foto de estúdio produzidíssima e photoshopada até o umbigo (artificial, é como você quer ser descrito?); foto recortada e de péssima qualidade (hoje em dia dá para tirar um montão até achar uma mais ou menos boa, não tem desculpa para esse relaxo) e até aquelas onde o sujeito aparece tão pequenininho e irreconhecível que ninguém consegue vê-lo; por fim, há os que roubam fotos de artistas famosos para representá-los (a gente fica pensando que o original deve ser um monstrenguinho).

Nossa imagem profissional é formada na mente das pessoas como se fosse um quebra-cabeças; a foto do perfil é uma pecinha importante, às vezes uma das principais que o mercado tem acesso.

Claro que a escolha é livre e de cada um. A ideia aqui é só provocar uma reflexão para que você analise e pense se a sua imagem na internê está coerente e de acordo com quem você é de verdade e com seus objetivos pessoais e profissionais.

Sair mal na foto não prejudica só na balada não. Pode queimar também seu contracheque…

Diploma pra quê?

27 de setembro de 2010 | ligiafascioni

tumblr_kql2glz08b1qzhtfgo1_500-214x300Estava na semana passada ministrando aulas em um MBA quando um funcionário da instituição, bem desanimado, comentou que um primo dele tinha até doutorado e estava ganhando uma miséria fazendo bicos. Aguardava uma bolsa para estudar mais um pouco. Injustiça, né?

Mas será mesmo?

Sinceramente, acho que não. Pela descrição do perfil, parece que o rapaz é estudante profissional. Não há nada de mal nisso, mas que ninguém espere ganhar fortunas dependendo apenas de bolsas de estudo.

O problema é que algumas pessoas costumam levar ao pé da letra aquelas manchetes escandalosas publicadas nas capas de revistas de negócios dizendo que um curso de MBA pode aumentar seu salário em muitos porcento. Vejo gente fazendo as contas do investimento, computando a diferença entre a mensalidade e o incremento no contracheque que espera obter. O problema é que isso não acontece automaticamente, como muitas reportagens querem fazer crer; então, o que se vê por aí é uma legião de pós-graduados subempregados e reclamando da vida.

A questão é que, diferente do que possa parecer, o mercado não faz concursos nem paga mais para quem tem mais diplomas. O mercado remunera melhor quem consegue gerar mais valor, tendo ou não uma pilha de certificados. E é pior contratar uma pessoa sem noção, mas com diploma, pois essa pessoa não vai querer tirar xerox ou fazer serviços “menores”.

O diploma nada mais é do que um comprovante que você teve acesso a um conjunto específico de informações que lhe foram apresentadas de maneira estruturada e com orientação de outros profissionais, supostamente experientes e conhecedores da matéria. Você ganha esse pedaço de papel quando consegue provar para a instituição que o emitiu que conseguiu assimilar essas informações de maneira satisfatória. E só. Lá não tem nada dizendo que agora você é melhor que os outros, que ficou mais inteligente ou que merece um aumento. Pode procurar, garanto que não tem.

Então, como é que o diploma pode ter a ver com aumento de salário? As revistas estariam mentindo?

Não estão. É que, teoricamente, se você tem vários diplomas, teve acesso a vários conjuntos de informações específicas. Isso aumenta muito as suas chances de recombiná-las e criar algo que, de fato, tenha valor para o mercado. Que faça diferença na vida das pessoas. Que seja desejável a ponto de alguém poder pagar mais por isso. Quanto mais cursos, mais combustível e mais matéria prima para converter em excelência. Quem sabe aproveitar isso, ganha mais, claro.

Se, ao contrário, o sujeito pega o papel, emoldura ou então guarda na gaveta e esquece as tais informações, sem fazer nada de útil com isso, então, sinto informar, mas valeria mais a pena ter ficado em casa vendo novela. Seria mais barato e menos frustrante. Há alunos que estão claramente perdendo o seu tempo: pagando as prestações de um diploma que não servirá absolutamente para nada, uma vez que não estão interessados em gerar valor, mas em aumentar o salário.

Vejo um montão de gente por aí que apenas coleciona certificados; não aplica o que aprendeu (se é que aprendeu alguma coisa), não se interessa em fazer coisas novas e interessantes, não transforma o conhecimento em algo útil, e, pior, ainda sai por aí cheio de razão reclamando direitos.

Diploma, sem um profissional que o converta em valor que faça uso do que ele representa, é só um pedaço de papel. Igual àquele que embrulhava o pão antigamente, só que muito menos útil.

Lígia Fascioni | www.ligiafascioni.com.br

Chega de CAPTCHAS!

13 de setembro de 2010 | ligiafascioni

Fotografia: Matt Stuart

Fotografia: Matt Stuart

Tá bom, você, como eu, não consegue mais ouvir sobre o tal foco no cliente. É um tal de “nossa empresa tem foco no cliente, viu? Nós acordamos, comemos, trabalhamos, dormimos e sonhamos pensando em como fazer nossos clientes felizes” que não é fácil. Claro que na parede, não falta nunca uma declaração de missão e visão, espremendo a palavrinha mágica “cliente” entre previsíveis e entendiantes gerúndios, combinando bem com a moldura de gosto duvidoso.

E se em vez de ficar nesse teatrinho de roteiro ruim, as empresas realmente pensassem no cliente, só de vez em quando, para variar? Não precisa ser nada muito difícil para começar.

Brindes com a marca da empresa estampada de maneira bem discretinha dentro da pasta/sacola/bolsa já contribuiria muito para evitar a sensação de raiva que dá ao ver aquela pasta bacaninha totalmente destruída por uma marca gigantesca bem na frente (algumas tem o desplante de incluir alguma frase idiota com a palavra “cliente”).

Vamos falar sério: alguém que realmente pensa no cliente seria capaz de uma indelicadeza dessas? Estampar sua marca de maneira indiscreta, intrusiva e deselegante pode, em algum planeta, ser encarado como uma gentileza (que, de resto, pelo menos teoricamente, deveria ser o objetivo primeiro dos tais mimos)? Não seria muito mais fino ganhar um porta cartões de visita cuja marca do generoso patrocinador estivesse grafada discretamente do lado de dentro? Você não deixaria nunca de ver a tal marca, mas não nutriria um sentimento de raiva insana cada vez que a olhasse e, melhor, passaria a usar e valorizar de fato o tal brinde.

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Será que você é um iconoclasta?

3 de setembro de 2010 | ligiafascioni

Fotografia: Paolo Franco

Fotografia: Paolo Franco

Perguntinha capciosa essa, heim? Vou dar uma pista, afinal, até alguns dias atrás, eu nem fazia ideia se isso era de comer ou de beber.

Vamos lá: iconoclasta, significa, literalmente, destruidor de ícones. A origem da palavra data de 725 d.C., quando Leo II, imperador de Constantinopla, destruiu o ícone dourado de Cristo instalado nos portões de seu palácio. O iconoclasta não respeita símbolos, ídolos, imagens religiosas ou qualquer tipo de convenção social ou tradição. Um iconoclasta entende que nada nem ninguém é digno de culto ou reverência.

Quem desenterrou isso lá das antigas e trouxe para o nosso mundinho contemporâneo foi o neurocientista Gregory Berns, com seu ótimo livro “O iconoclasta“.

Berns atualiza o conceito quando diz que iconoclasta é uma pessoa incomum que interpreta a realidade de maneira distinta e faz aquilo que o senso comum julga impossível de ser feito. Ou seja, iconoclastas são inovadores, aquela raça que muda o mundo e vira pelo avesso tudo o que a gente conhece. Nem sempre esse povo é fácil de lidar, mas são eles que fazem a civilização andar.

Os iconoclastas são pessoas diferentes da média e vêem o mundo de uma maneira diversa e original. Gregory Berns descobriu, inclusive, que o cérebro dessas pessoas é diferente em três aspectos principais: a percepção, a resposta ao medo e a inteligência social.

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Dentista equivocada

11 de julho de 2010 | ligiafascioni
eveduhamel1Ilustração: Eve Duhamel

Droga, aconteceu de novo! Entro no carro com pressa, ponho o cinto de segurança, dou partida e, quando olho para a frente aparece um daqueles papeizinhos irritantes presos no limpador de pára-brisas. Como estou voltando da aula de yôga, só me resta colocar os ensinamentos em prática: respirar fundo, manter a calma e a serenidade e, sem movimentos bruscos, retirar o lixo e colocá-lo no devido lugar, dentro do carro. Há que se perdoar esse tipo de coisa, pois eles não sabem o que fazem.

E não sabem mesmo. A equivocada da vez é uma dentista oferecendo seus serviços. Tenho a mais absoluta certeza de que essa moça não tem a menor noção do estrago que está fazendo em sua vida profissional com essa “ação de marketing”.

O maior problema, a meu ver, é que as faculdades que formam profissionais liberais não oferecem em seus currículos nem a mais leve noção do que venha a ser marketing e para que serve. O resultado é que a aluna mais habilidosa da turma pode ser um fracasso profissional pela falta de conhecimentos básicos sobre como se posicionar e se manter no mercado. Um desperdício de talento que resulta numa eterna fonte de poluição para o público em geral e muita frustração para o profissional em questão.

Todo mundo sabe que é complicado para quem está começando um negócio investir em consultorias de marketing e design (até porque está cheio de profissionais de marketing e design fazendo o mesmo tipo de bobagem), mas pelo menos alguma informação básica sobre o que não fazer talvez possa ajudar.

A primeira coisa que um profissional liberal precisa entender é que, em serviços, tudo depende de relacionamentos. E ele precisa se colocar no lugar do cliente para compreender isso melhor: um dentista, quando precisa de um advogado, começa por onde? Realiza freneticamente uma busca seletiva na sua lixeira até encontrar a propaganda de um? Fica atento aos panfletos que recebe nos semáforos? Então o que o faz crer que poluir a cidade vai fazer as pessoas guardarem o lixo para entrar em contato depois e contratá-lo?

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Credibilidade

31 de março de 2010 | ligiafascioni

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Sou fã de carteirinha do Ênio Padilha e na newsletter dessa semana ele se superou outra vez. Escreveu uma daquelas colunas que todo mundo gostaria de ter escrito; concordo com cada letra. Vou reproduzir o texto, mas o original está aqui.

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CREDIBILIDADE É UM RECURSO VALIOSO por Ênio Padilha

Credibilidade é, de fato, um recurso valioso (é raro, é idiossincrático e é percebido pelo cliente como algo positivo). No entanto, é muito difícil para um indivíduo (ou uma organização) afirmar categoricamente que possui credibilidade, ou que a sua credibilidade é maior do que a dos seus concorrentes a ponto de construir-se em um diferencial competitivo.

Nos meus cursos, por exemplo, quase todos os profissionais afirmam ter dificuldades para convencer seus clientes a fechar os negócios. Mas depois, na hora de fazer o exercício sobre recursos e diferenciais competitivos, colocam lá em letras maiúsculas: CREDIBILIDADE.

Eu fico me perguntando: “que tipo de credibilidade é essa, que na hora de fazer a diferença simplesmente não funciona?

A credibilidade é a característica de quem é digno de ser acreditado. Para negociar e vender serviços é importante (fundamental) a credibilidade, construída pelo comportamento e performance no mercado ao longo dos anos.

Ter credibilidade significa que as suas previsões e promessas são aceitas como verdade pelos seus interlocutores.

Se uma pessoa diz que tem credibilidade mas, na hora de negociar com o cliente não consegue nada, então uma de duas coisas está acontecendo: ou a pessoa não está argumentando corretamente (não está prometendo ao cliente alguma vantagem diferenciada) ou, o que parece ser o mais comum, não tem tanta credibilidade quando acha que tem.

Além do mais, a estatística está contra essa legião de engenheiros e arquitetos que afirmam ter credibilidade no mercado, pois todos os levantamentos feitos junto aos clientes (eu mesmo fiz um, para um trabalho do mestrado) aprontam o descumprimento dos prazos como uma das principais reclamações dos clientes em relação aos profissionais.

Ora, um prestador de serviços que não cumpre seus prazos e não tem disciplina para lidar com os seus compromissos (chega atrasado às reuniões, demora um dia a mais para enviar aquele relatório ou proposta, vive dando explicações sobre seus descumprimentos de prazos e horários (trânsito, computador, funcionários, fornecedores….)) não consegue passar segurança para seu cliente. Não pode dizer que tem credibilidade.

Credibilidade é conseqüência. A causa é o comportamento profissional no mercado.

O espontâneo

8 de fevereiro de 2010 | ligiafascioni

Fotografia: Marco Grizelj e Kristian Kran

Fotografia: Marco Grizelj e Kristian Kran

Trabalhei com um sujeito que pensava em voz alta o dia todo. O resultado é que a gente nunca podia confiar no que ele dizia, uma vez que as idéias ainda não estavam maduras e ele as mudava a toda hora. Nas reuniões, fazia questão de expressar seu ponto de vista, mesmo que não acrescentasse nada no que estava sendo discutido. Ele se gabava de ser autêntico, espontâneo, em resumo: “ele era ele mesmo“.  Seu lema: “Quem quiser que goste de mim do jeito que eu sou“.

O resultado é que, na empresa, em vez de ressaltar a sua competência, ele era conhecido como “o chato“. E não estava sozinho não. A legião de espontâneos só vem crescendo depois que os BBBs da vida começaram a alardear em cadeia nacional o valor de ser “eu mesmo“. E, nas empresas, isso está cada vez mais se tornando um problema.

A gente liga a TV, conversa com um colega que viu uma ou duas vezes ou lê uma entrevista; sempre tem alguém contando suas intimidades, seus medos mais profundos, enfim, sendo “ele mesmo“.

Só que expressar segredos (principalmente na empresa) é o equivalente a sair por aí impingindo a nudez a todos, independente do interesse de cada um; além do que, é extremamente sem graça sair por aí mental ou fisicamente pelado. É a maneira mais rápida e eficiente de constranger quem está ouvindo; desde que o mundo é mundo, segredos são interessantes enquanto mantidos em sigilo.

O fato é que o planeta está cada vez mais cheio de gente e todos querem mostrar “seu próprio eu“. Todos estão ansiosos para falar, mas quase ninguém quer ouvir. A gente recebe tanta carga de informação todos os dias que, uma hora, é natural que queiramos nos expressar.

Existem muitas maneiras de se fazer isso e, no local de trabalho, há que se tomar cuidado ao “soltar o verbo”. É que a fala, ao contrário do que muitos pensam, não serve para desentupir cérebros. Para isso existem as artes. Podemos expressar nossos sentimentos desenhando, pintando, escrevendo, filmando, fotografando, blogando, twittando, enfim, opções para desabafar é o que não falta. Se a pessoa não quer se expor, todas essas formas permitem o uso de pseudônimos. Os demais podem ou não apreciar, podem ou não entender, podem ou não ver, ler, apreciar. Eles podem escolher.

Já quando alguém fala num ambiente fechado, como um escritório, os que estão presentes não têm alternativa, eles têm que ouvir, seja o assunto do seu interesse ou não. E dificilmente as pessoas estarão abertas a qualquer tipo de opinião alheia se estão concentradas em outra coisa: lendo e-mails, fazendo um relatório, atendendo ao telefone, pensando sobre um problema ou até vendo televisão. Assim, qualquer coisa que se diga pode perturbar a paz do lugar e desencadear uma crise ruim para todo mundo; é o famoso “climão“.

A questão é que quem fala sem pensar, dificilmente está preocupado em entregar valor ao companheiro de trabalho, cliente ou quem quer que seja. O ideal seria emitir uma opinião somente quando tiver certeza de que tem alguma utilidade ou será bem recebida por quem vai ouvi-la. As pessoas não ficam mudas fazendo isso, pode acreditar. É bem difícil (eu ainda não consigo), mas é o que nos faz civilizados; justamente não sermos espontâneos.

A civilidade consiste, basicamente, na convivência em sociedade, quando se leva em consideração o conforto e o bem estar do outro, além de respeitar o momento de cada um. Mas os espontâneos, ao ouvirem isso, correm logo a recitar o seu mantra clássico “eu eu? quem se preocupa comigo?“.

Os espontâneos têm razão, poucas pessoas hoje em dia se preocupam em entregar valor, justamente porque estão quase todos concentrados no seu próprio conforto e bem-estar, em expressar “seu próprio eu“.

Alguns, bem poucos, é verdade, realmente tomam o cuidado de falar somente quando têm algo a contribuir, ou certificam-se que o assunto tratado é de interesse do interlocutor. E você já reparou que essas pessoas raras são as que sempre têm um astral bacana, são as mais legais, as mais educadas, as mais queridas e incensadas, com quem todo mundo gosta de trabalhar?

Pois não me admira…

Lígia Fascioni | www.ligiafascioni.com.br

Sobre excelência e valor

30 de janeiro de 2010 | ligiafascioni

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Excelência é uma palavra muito em moda, assim como valor. É um tal de atingir níveis e padrões de excelência para lá e agregar valor para cá que é uma loucura. Todo mundo ouve, todo mundo usa, mas poucos sabem exatamente o que esses vocábulos realmente significam no dia-a-dia profissional. Infelizmente, menos pessoas ainda colocam esses conceitos em prática. Vamos por partes, então.

O que faz um profissional merecer o adjetivo excelente?

Antes dessa pergunta ser respondida, há uma outra talvez mais relevante, que a gente nem sempre se lembra de fazer:

Quem é que atribui a classificação excelente a um profissional?

Bom, essa é mais fácil. Quem avalia e classifica um profissional é quem usufrui de seus serviços e o remunera; ou seja, o cliente. Então, profissional excelente é aquele que entrega valor para esse cliente, onde entenda-se por valor tudo aquilo que tem qualidade, é importante, útil, legítimo, válido, merecido e desejado. Não custa lembrar, tudo isso é do ponto de vista do cliente, não do profissional.

Resumindo, a atitude excelente está focada em entregar valor para o cliente.

Beleza essa história de “entregar valor para o cliente”, mas se eu sou auxiliar de escritório e não tenho nenhum contato com o cliente? E se sou estudante? E se eu trabalho como professor e não vendo nada?

É o seguinte: cliente é todo mundo que interage com você e remunera seu trabalho (trabalho= capacidade de provocar mudança) de alguma maneira (nem sempre com dinheiro). Então, se você é operário, o seu patrão é seu maior cliente (ele compra quase todas as suas horas úteis). Mas não apenas isso — se você prestar bem atenção, vai notar que seus colegas também são seus clientes (vocês trocam favores, não é? ). Se você é casado, seu cônjuge é seu cliente (a interação entre vocês provoca mudanças e traz recompensas para ambos; se não é o caso, melhor pedir demissão). Assim, praticamente todo mundo com quem a gente convive pode ser considerado nosso cliente.

Se você não provoca mudança de nenhuma espécie, então também não produz trabalho. Se você não está sendo remunerado à altura da mudança que você consegue provocar, é porque o cliente (quem quer que seja ele), não está percebendo valor nisso. Nesse caso, você pode mudar de atitude para identificar o que é que tem realmente valor e focar no que importa, ou então pedir demissão. Pense a respeito e veja o que é melhor para as duas partes.

Vale lembrar que os clientes são pessoas, portanto são diferentes, têm necessidades distintas e precisam ser tratados com prioridades diversas. Mas convém não esquecer que todos merecem, em algum grau, receber o valor que você tem para entregar.

Se você está ciente da sua missão profissional, de entregar valor, estará sempre observando o ambiente em busca de oportunidades que possam satisfazer seu cliente antes mesmo que ele se dê conta da necessidade. É o balconista que percebe que você está com pressa e faz tudo bem rapidinho; o anfitrião que orienta o garçom a colocar um copo cheio na sua mão assim que seu ameaça se esvaziar; a companhia de seguros que faz o mecânico levar um lanche para o cliente nas missões de socorro; o hotel que inclui um bombom de boas-vindas sobre a cama; e por aí vai.

Mas atenção: lembre-se de que a atitude tem que ter valor para o cliente. Não custa repetir isso porque, às vezes, a gente faz o que gostaria que os outros fizessem por nós, mas não exatamente o que o nosso cliente gostaria. Um exemplo: se você adora incenso de jasmin e acha que assim o ambiente fica mais aconchegante, procure primeiro saber se o seu cliente também vê da mesma maneira. Pode ser que ele tenha alergia, ou que não goste do cheiro. Nesse caso, não é a intenção que vale, mas a capacidade de ver com o olhar do outro; a sensibilidade para perceber o que é importante e tem valor para o cliente. Canso de ver restaurantes com a televisão ligada bem alto só para o dono assistir, pois o volume atrapalha a conversa dos clientes. E o sujeito todo convencido de que está “agregando valor” só porque o aparelho tem 50 polegadas. Ou então a gráfica que dá de presente aquele calendário feio de doer, que será descartado assim que o representante for embora. Para que dar brindes que ninguém quer? As pessoas querem valor, não lixo. E isso não tem nada a ver com dinheiro. Um sorriso pode ser bem mais valioso do que um chaveirinho de gosto duvidoso.

Há também quem acredite que entregar valor é paparicar o cliente derretendo-se a cada mínimo movimento do pobre, quando tudo o que ele mais quer na vida é paz e privacidade.

Vale ressaltar que o profissional excelente entende bem o conceito de sustentabilidade – não adianta faturar uma fortuna esse mês, se no próximo terei gerado uma demanda que não tenho condições de atender. Também não adianta deixar o cliente feliz com um prato sofisticado a preços populares se depois não consigo pagar minhas contas. O valor para o cliente precisa ser sustentável para todas as partes envolvidas; é preciso encontrar um equilíbrio entre entregar valor e ser recompensado à altura. Faço um café para um amigo para lhe entregar valor, mas tenho que fazer isso com prazer, senão o ato não é sustentável, não vale tirar valor de um para cobrir outro.

Ser excelente, em resumo, é olhar com os olhos do cliente, colocar-se no lugar dele, ouvir atentamente, perceber entrelinhas, interessar-se por algo que não seja seu próprio umbigo. Pensar sobre o que o faria encantar-se, o que lhe roubaria um sorriso.

No mais das vezes, não é tão difícil. A questão é que o ego é o maior inimigo da excelência.

Pense nisso.

Liderando no grito

17 de janeiro de 2010 | ligiafascioni

Mais uma da série spams engraçados (concorrendo ao troféu “tiro no pé“).

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Parece que o tal do líder faz gestão de pessoas na base do grito, mas a galera não está nem aí (e o que são essas poses?). Será que junto com o DVD vem o megafone?

Para quem está começando

3 de dezembro de 2009 | ligiafascioni

capa_amarela_frenteEssa semana peguei no colo, pela primeira vez, meu quarto filho: “Atitude profissional: dicas para quem está começando“. Nossa, é uma sensação muito bacana mesmo. O livro está na editora desde janeiro, mas por causa da crise aconteceram vários problemas (ele é todo ilustrado e ia ser preto e amarelo; no final ficou monocromático para reduzir custos) e só agora, 11 meses depois, o danadinho veio ao mundo.

O irmão dele já está na gráfica (”DNA Empresarial: Identidade corporativa como referência estratégica“), mas acho que não vai dar tempo de vê-lo esse ano ainda.

Como viajo dia 11 (na outra sexta) e só volto no início de janeiro, quem quiser ter o Atitude em mãos  autografado antes do natal  tem que correr. Para adquirir um exemplar é só mandar um e-mail para ligia@ligiafascioni.com.br como o endereço para envio que eu respondo com as contas para depósito bancário (custa R$ 32,0o e o frete é por minha conta).

Como estou na maior correria, vou reproduzir aqui a primeira orelha, para vocês terem uma ideia do que se trata: “Há tempos venho ministrando palestras para estudantes secundaristas e universitários sobre atitude profissional. A ideia não é dar lições de vida ou revelar grandes verdades; apenas compartilhar algumas coisas que aprendi a observar com mais atenção. Meu objetivo é enfatizar alguns pontos que só comecei a considerar muitos anos depois de já haver iniciado minha tividade profissional. Um tombo aqui, um escorregão acolá, e a gente vai crescendo e observando comportamentos, aprendendo a se posicionar melhor. Escrevi o livro que gostaria de ter lido logo que entrei na escola, ou pelo menos que alguém tivesse me dito algumas dessas coisas quando entrei na adolescência. Espero que faça alguma diferença na vida de quem vai lê-lo.

Logo vou colocar um link na barra aqui ao lado com mais detalhes.

Dados Técnicos:

Número de páginas: 152 pp.  Peso 220,5 gramas
Formato: 16 X 23 cm  impressão off-set p/b
Lombada: 0,9 cm
Encadernação: Brochura
Preço:  32,00
ISBN: 978-85-7393-849-4
Código de barras: 9788573938494
Assunto: Relações Interpessoais

Dois engenheiros e oito milhões

14 de novembro de 2009 | ligiafascioni

pasta+caseira

Três coisas me aborrecem muito: Um, quando se faz apologia do sucesso de quem não estuda menosprezando ou descrevendo como tolo aquele que estudou; Dois, quando uma história sem pé nem cabeça é “vendida” como verdade absoluta só porque “deu na internet”; Três, quando engenheiros ou arquitetos são ridicularizados em público por alguém que nunca sentou num banco de faculdade de Engenharia ou de Arquitetura e, portanto, não sabe do que está falando

Essas palavras poderiam ter saído do meu teclado, pois concordo e assino embaixo de tudo o que está escrito. Mas quem as combinou foi o genial Ênio Padilha em um artigo esclarecedor sobre um vídeo que rola há anos pela Internet com a palestra do Sr. Mario Sérgio Cortella, onde ele conta como operários ridicularizaram engenheiros numa linha de produção de pasta de dente. A história é fake, mal contada e ridícula, mas muita gente leva isso a sério como se fosse um ensinamento.

Segue o artigo do  Ênio.

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Atitude Pro e empregabilidade: por que falta emprego?

2 de novembro de 2009 | albertocosta

Devo confessar que poucas vezes na vida encontrei tanto estímulo para escrever como na coluna do Max Gehringer a que me referi no primeiro post sobre esse assunto. A segunda pergunta que ele respondeu foi de alguém chamado Grégor, que pedia uma explicação para o fato de, seis meses depois da formatura, apenas 3, entre 80 colegas, terem conseguido emprego – o Max foi ótimo, afirmando o óbvio: há poucas vagas, ora bolas. O que você acha que as empresas deviam fazer? Aumentar o número de vagas cada vez que uma turma de formandos jogasse seus capelos para o alto em algum auditório bonitinho?

600px-Education_-_Grad_Hat.svgCapelo não é crachá nem carteira funcional.

Mas eu diria ao Grégor (ou, mais precisamente, aos leitores do blog de atitude) que essa pergunta que ele fez esconde (ou revela) um sério problema de atitude profissional. Será que vocês, assim como o Grégor, acham que emprego é uma espécie de prêmio que se concede a alguém por terminar um curso profissionalizante, universitário ou não? Temos, então, um sério problema de gestão de expectativas a resolver aqui.

Quando nos matriculamos em um curso (do maternal ao curso para casais gestantes oferecido pela maternidade local, passando pelo cursinho pré-vestibular, pela classe de catecúmenos e pelo pós-doutorado em astrofísica aplicada à gestão de escolas de samba), não importa o que a propaganda diga, a única promessa válida é a que corresponde à natureza dos cursos: conhecimento(s), habilidade(s) e um certificado ou diploma, além do respectivo recibo pelo pagamento das mensalidades ou anuidades. A consequência natural de um curso não é um emprego, não importa o que lhe tenham dito.

A pergunta do Grégor é absurda. É quase como se ele perguntasse: porque, chovendo como chove na região amazônica, vende-se tão poucos guarda-chuvas ali, comparativamente com São Paulo? É “elementar, meu caro Watson“: guarda-chuvas não são produzidos em relação com a precipitação pluviométrica, mas em relação com a população que não quer molhar-se. E são 40 milhões no estado de São Paulo, contra 15 milhões em toda a região norte do país (incluindo um bocado de tribos indígenas que não ligam a mínima para molhar-se ou não).

Emprego é uma demanda por competências (conhecimentos, habilidades e atitudes) tanto mais valiosas quanto mais raras. Então, como alguém consegue diferenciar-se, tornando rara e valiosa a sua competência? Como ser um dos 3 numa turma de 80? Atitude, meus caros: a única, das três variáveis, que não pode ser transformada em commodity.

Os 80 tiveram acesso ao mesmo volume de informação e a oportunidades similares para desenvolver suas habilidades. O Grégor, entretanto, formou-se sem proficiência na língua pátria, provavelmente uma deficiência comum aos outros 76 desempregados (sem falar de outras possibilidades, de arrogância a mau hálito, passando por chegar atrasado à entrevista e colocar a culpa nos semáforos, aquelas inocentes luzes coloridas que enfeitam nossa vida urbana e sabem exatamente a hora de agir e a hora de dar oportunidade às colegas).

Estude para aprender. Aliás, estude para aprender a aprender. E quando um provável empregador lhe perguntar quais são seus principais defeitos, não responda: “eu sou perfeccionista”. Ninguém é suficientemente perfeccionista para fazer suficientemente bem o que se espera de alguém que tem um emprego: gerar valor para o cliente, produzir a riqueza da nação. Há um bocado de vagas não preenchidas no mercado, inclusive para empresários (porque muito empreendedor iludido quis ser “empresário” pelo motivo errado: “ganhar dinheiro” ou “não ter patrão”). Ainda falarei mais sobre isso.

Todos os ouvidos

22 de outubro de 2009 | ligiafascioni

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Essa semana assisti a uma palestra bem interessante. No coquetel de encerramento conversei com um empresário que elogiava a ótima apresentação, pois tinha lhe rendido ótimas ideias. Quando ele começou a apresentar suas propostas, fiquei surpresa: a maioria contradizia ponto a ponto tudo o que o palestrante tinha falado.

Aos poucos, dei-me conta do que aconteceu: as primeiras frases lhe inspiraram tanto que depois ele não prestou atenção em mais nada do que foi dito. Perdeu a melhor parte e, apesar da diversão mental, suas ideias cairiam todas por terra em uma análise mais crítica. Mas ele estava feliz e satisfeito com seu próprio desempenho e despejava, contente, suas sacadas geniais.

Quantas vezes a gente comete o mesmo erro, de começar a elucubrar e não ouvir o que poderíamos aprender? Ficamos tão maravilhados com a festa que rola dentro da nossa própria cabeça que o mundo exterior fica completamente dispensável e até meio entediante. Do lado de dentro da gente não há críticas, chatos duvidando do nosso brilhantismo, ceticismos e julgamentos fora de hora. São ideias lindas pipocando e se reproduzindo descontroladamente como fogos de artifício. Resistir, quem há de?

Isso faz lembrar de um dito antigo, onde há quem se gabe de “enquanto você está indo com a farinha, eu já estou voltando com o bolo”. Essa frase, apesar da pessoa que a usa com frequência não perceber, resume a total e incontestável incapacidade de ouvir. Para mim ela faz um parzinho perfeito com outra que diz que “tem gente que só aprende o que já sabe”. É ou não é?

É que ouvir é uma das tarefas mais difíceis que existem para um ser humano. Desviar um pouquinho os olhos do próprio e adorado umbigo e prestar atenção no outro; concentrar os sentidos em absorver o conhecimento e a experiência de alguém que não mora na nossa cabeça; deixar de lado nossas próprias convicções e tentar vestir a pele de outrem. A missão demanda muito esforço e um domínio quase sobrehumano do nosso pobre ego. Mas compensa. Sem isso, é quase impossível aprender de verdade.

Mas é preciso dizer que é difícil, muito difícil mesmo. Resta a confissão final e envergonhada: eu mesma bolei essa coluna inteirinha enquanto “ouvia” o tal empresário…

Fazer o quê?

Excelência Pitbull

13 de outubro de 2009 | ligiafascioni
Ilustração: Marcos Guilherme

Ilustração: Marcos Guilherme

Spam é uma chateação na vida da gente, mas, dependendo do enfoque, pode virar diversão ou mesmo tema de coluna quando a gente está sem assunto. Pois essa semana recebi um e-mail não solicitado com um design de dar dor de cabeça me convidando para um curso imperdível. Eles prometiam que, se eu aceitasse o convite, poderia me tornar uma super-mega-master vendedora pitbull.

Deus me livre de uma coisa dessas. Adoro cachorros (inclusive pitbulls), mas sei bem que não é a docilidade e meiguice canina que eles estão mirando. São os dentes fortes e os músculos poderosos para atacar a qualquer momento e conseguir o que querem. Nesse caso, o cliente é um mero detalhe, que só existe para ajudar o tal vendedor a cumprir a meta do mês. Certeza.

Vamos lá: profissional competente, seja vendedor, neurocirurgião ou guardador de carros, sustenta sua excelência sobre um tripé: o conhecimento (que qualquer um precisa ter da profissão que escolheu para ganhar a vida, além da cultura geral); a habilidade (que a gente precisa ter para colocar as coisas em prática e fazer acontecer); e a atitude (a maneira como a pessoa se posiciona e se comporta no mercado).

A atitude é o que faz a diferença num mundo onde o conhecimento e a habilidade estão acessíveis a qualquer um; é sua visão do mundo, seus valores, suas crenças e o que você faz com o que aprendeu a fazer. Profissional com atitude excelente está focado em entregar valor para o seu cliente.

Beleza essa história de “entregar valor para o cliente”, mas se eu sou operário e trabalho numa fábrica, sem nenhum contato com o cliente? E se sou estudante? E se eu trabalho como zelador em um prédio e não vendo nada?

É o seguinte: cliente é todo mundo que interage com você e remunera seu trabalho (trabalho= capacidade de provocar mudança) de alguma maneira (nem sempre com dinheiro). Então, se você é operário, o seu patrão é seu maior cliente (ele compra quase todas as suas horas úteis). Mas não apenas isso — se você prestar bem atenção, vai notar que seus colegas também são seus clientes (vocês trocam favores, não é?). Se você é casado, seu cônjuge é seu cliente (a interação entre vocês provoca mudanças e traz recompensas para ambos; se não é o caso, melhor pedir demissão). Assim, praticamente todo mundo com quem a gente convive pode ser considerado nosso cliente.

Os clientes, como as pessoas, são diferentes, têm necessidades distintas e precisam ser tratados com prioridades diversas. Mas convém não esquecer que são todos clientes e merecem, em algum grau, receber o valor que você tem para entregar.

Se você está ciente da sua missão profissional, de entregar valor, estará sempre observando o ambiente em busca de oportunidades que possam satisfazer seu cliente antes mesmo que ele se dê conta da necessidade. É o balconista que percebe que você está com pressa e faz tudo bem rapidinho; o anfitrião que orienta o garçom a colocar um copo cheio na sua mão assim que seu ameaça se esvaziar; a companhia de seguros que faz o mecânico levar um lanche para o cliente nas missões de socorro; o hotel que inclui um bombom de boas-vindas sobre a cama; e por aí vai.

O profissional excelente entende bem o conceito de sustentabilidade – não adianta faturar uma fortuna esse mês, se no próximo terei gerado uma demanda que não tenho condições de atender. O valor para o cliente precisa ser sustentável para todas as partes envolvidas.

Outra questão importante a se destacar é que ser excelente não implica necessariamente em ter dinheiro para investir; trata-se mais de olhar com os olhos do cliente, colocar-se no lugar dele, ouvir atentamente, perceber entrelinhas, interessar-se por algo que não seja seu próprio umbigo. Pensar sobre o que teria valor para o outro, no que o faria encantar-se, o que lhe roubaria um sorriso.

Cães são maravilhosos para entregar valor, mestres em encantar e adivinhar nossas necessidades. Mas um vendedor pitbull eu não quero ser não. Se é para entregar valor, prefiro mais um labrador ou um querido vira-lata.

E auau para os spams.

Lígia Fascioni | www.ligiafascioni.com.br